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Artigos do Pe. XIKO
Dom Antônio Cheuiche, um intelectual
Autor: Armindo Trevisan
31 de Outubro de 2009

Privei com Dom Antônio do Carmo Cheuiche, falecido no dia 15 do corrente, em três momentos de minha vida: quando o conheci em Santa Maria, por volta de 1971, bispo recém-empossado da diocese; logo depois, nos anos l985-1987, ao viajar , a convite seu, a Bogotá, para representar o Brasil em dois simpósios, promovidos pela Universidade Javeriana, sobre “A presença de Deus na ficção latino-americana”, e “A presença de Deus na poesia latino-americana!”; o terceiro, recentissimamente, quando o reencontrei no Mercado Público.

Desejo, primeiramente, realçar sua personalidade singular. Dom Antônio não era um amigo comum, nem de fácil abordagem, visto que poderia ser definido “um nômade de Deus”. Estava sempre “noutra parte”, como as sementes que, antes de se afundarem no segredo da terra, passam pelo ar. Ninguém mais amável do que ele, ninguém mais solícito e mais sedutor. Sua palavra era, até, de uma fluência e de um colorido únicos. Completava-a um senso de humor que só não se transformava em ironia por ele possuir um coração solidário e cristão.

Foi um homem de ampla cultura filosófica, estética, literária. Se tivesse escrito o que poderia ter escrito, seria um “Augusto Meyer católico”, um segundo Erasmo do Pampa. Durante as viagens a Bogotá, referiu-me ter conhecido os maiores escritores contemporâneos da Espanha. Nos seus tempos de estudos, em Madri, manteve contatos frequentes com o poeta João Cabral de Melo Neto. Narrou-me, sem a mínima vaidade, ter dado instrução religiosa às Infantas da Espanha, no convento onde celebrava missa. Nesse período de sua vida, elaborou uma brilhante tese sobre a estética de São João da Cruz.

Suas alocuções fascinavam os ouvintes, onde quer que o escutassem. Dom Cheuiche – seja dito de passagem – não se preocupava em fazer prosélitos. Preferia contagiar ex-cristãos, agnósticos e ateus, com o mistério da Palavra de Deus.

Quanto à sua piedade pessoal, sirva aos leitores este breve depoimento. Na primeira noite que passei em Bogotá – não conseguindo dormir devido à reação de meu organismo à altitude – fui à Capela do Celam para conhecê-la. Encontrei lá Dom Cheuiche, às três da madrugada, absorto em meditação – tão absorto na prece que me retirei, imediatamente, na ponta dos pés...

Meu último contato com esse homem extraordinário foi poucos meses antes de sua morte. Tal contato acabou sendo para mim doloroso. Dom Antônio, logo que me viu, confidenciou-me que havia estado enfermo, e que fora a primeira vez na vida em que entrara num hospital. Procurei distraí-lo de tão lúgubres pensamentos. Convidei-o para um cafezinho. Não o aceitou. Hoje o entendo, Excelência. Para alguém que estava no limiar da Vida Eterna, o que poderia ser um cafezinho senão uma frivolidade? Perdoe-me V. Excia a leve mágoa que guardei...

No Paraíso, reverencie por mim São João da Cruz, e, se possível, agora já com tempo (e uma Eternidade à disposição!) dê um abraço fraterno a Dante Alighieri e a Juan Ramón Jiménez – poetas que V. Excia, como eu, tanto apreciava.